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A ORDEM DE PRISÃO CONTRA MADURO, ACUSAÇÕES E DESDOBRAMENTOS JURIDICOS.

Recentemente, a Justiça Federal da Argentina ordenou a prisão preventiva de Nicolás Maduro e de seu braço direito, Diosdado Cabello. A decisão baseia-se no princípio da jurisdição universal, que permite a Estados processarem crimes contra a humanidade, independentemente de onde foram cometidos.

As principais acusações incluem:

  • Crimes contra a Humanidade: Tortura, sequestros e execuções extrajudiciais no contexto de um plano sistemático de repressão.

  • Narcoterrorismo: Paralelamente, os EUA manteve uma recompensa de US$ 15 milhões por informações que levassem à sua captura, acusando-o de liderar o "Cartel dos Sóis", sendo, posteriormete caputado por forças especiais do EUA.

  • A base legal para essas ações reside em tratados internacionais, como o Estatuto de Roma, que rege o Tribunal Penal Internacional (TPI).

    • Imunidade de Chefe de Estado: No direito internacional clássico, chefes de Estado em exercício gozam de imunidade. Todavia, para crimes de guerra e contra a humanidade, essa proteção tem sido cada vez mais questionada e mitigada por tribunais internacionais.

    • Jurisdição Universal: A Argentina aplicou este conceito sob o entendimento de que a gravidade dos crimes cometidos na Venezuela afeta a consciência da humanidade como um todo.

  • Atualmente o lider da Venezuela encontra-se custodiado nos Estados Unidos, e se apresentara ao Tribunal em Nova York quanto as acusaçoes ocorridas em 2020.

A Doutrina Ker-Frisbie e o Julgamento de Nicolás Maduro nos EUA: Uma Análise da Jurisdição e Imunidade Soberana

Autor: Dr. José Carlos Cruz. Advogado.

1. Introdução

A notícia da captura de Nicolás Maduro Moros por forças dos Estados Unidos, em solo venezuelano, e sua subsequente transferência para o Distrito Sul de Nova York para responder a acusações de narcoterrorismo [2], desencadeou um debate jurídico internacional de proporções inéditas.

 

O cenário, que envolve uma clara violação da soberania territorial da Venezuela e do Direito Internacional, coloca em xeque a validade do processo criminal perante a justiça americana.

 

A questão central reside em saber se a ilegalidade da captura, sob a perspectiva internacional, é suficiente para invalidar a jurisdição do tribunal americano. A resposta, no contexto do direito constitucional e processual penal dos EUA, é historicamente negativa, fundamentada na Doutrina Ker-Frisbie. Este artigo se propõe a analisar a evolução e o alcance dessa doutrina, sua aplicação ao caso Maduro e as possíveis defesas baseadas na imunidade soberana.

2. A Doutrina Ker-Frisbie: Origem e Consolidação Jurisprudencial

A Doutrina Ker-Frisbie é a expressão do princípio latino male captus, bene detentus (mal capturado, bem detido), que afirma que a jurisdição de um tribunal sobre um réu não é afetada pela maneira como ele foi levado à presença do tribunal.

 

Caso

Ano

Fato Central

Princípio Jurídico Estabelecido

Ker v. Illinois

1886

Frederick Ker foi sequestrado no Peru por um agente privado e levado para Illinois para julgamento [1].

A abdução forçada não é razão suficiente para que o réu não responda perante o tribunal com direito de julgá-lo [1].

Frisbie v. Collins

1952

Shirley Collins foi sequestrado em Chicago por policiais de Michigan e levado para julgamento [1].

O devido processo legal não é violado pela captura ilegal do réu; a jurisdição é mantida [1].

United States v. Alvarez-Machain

1992

Um cidadão mexicano foi sequestrado no México por agentes da DEA e levado aos EUA [1].

A Doutrina Ker-Frisbie se aplica mesmo quando há um tratado de extradição, a menos que o tratado proíba explicitamente a abdução [1].

 

O precedente de Alvarez-Machain é o mais relevante para o caso Maduro, pois válida a jurisdição mesmo em face de uma abdução patrocinada pelo Estado em um país com o qual os EUA mantêm relações diplomáticas e tratados. A Suprema Corte consolidou o entendimento de que, a menos que a conduta do governo seja "chocante para a consciência" (uma exceção sugerida, mas raramente aplicada, no caso United States v. Toscanino [4]), a jurisdição prevalece [4].

3. O Contexto do Caso Maduro: Acusações e Captura

Nicolás Maduro foi indiciado em 2020 por conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína e crimes relacionados a armas, sendo acusado de liderar o "Cártel de Los Soles" em colaboração com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) [3]. A acusação alega que a cocaína foi usada como uma "arma" contra os Estados Unidos [3].

A captura realizada por forças militares dos EUA em Caracas, configura uma intervenção militar não autorizada e uma violação da soberania venezuelana, contrariando a Carta das Nações Unidas. Contudo, sob a ótica do direito interno americano, a Doutrina Ker-Frisbie atua como um escudo processual para o governo, permitindo que o tribunal ignore a ilegalidade da captura e prossiga com o julgamento [4].

4. O Desafio da Imunidade Soberana

O principal obstáculo jurídico para a acusação americana não é a forma da captura, mas sim a alegação de imunidade soberana de Maduro.

4.1. Imunidade de Chefe de Estado

A imunidade de Chefe de Estado é um princípio de direito internacional que confere proteção absoluta contra a jurisdição criminal de tribunais estrangeiros. Nos EUA, a aplicação dessa imunidade depende do reconhecimento do indivíduo como Chefe de Estado pelo Poder Executivo [4].

 

Fator

Posição de Maduro

Posição dos EUA

Implicação Jurídica

Reconhecimento

Alega ser o presidente legítimo da Venezuela.

Não reconhece maduro como Chefe de Estado desde 2019, reconhecendo a Assembleia Nacional [4].

A falta de reconhecimento formal pelo Executivo dos EUA enfraquece drasticamente a alegação de imunidade perante os tribunais americanos [4].

Precedente

-

Caso United States v. Noriega (1990) [4].

A corte rejeitou a imunidade de Manuel Noriega, um líder de fato, por crimes de narcotráfico, argumentando que a imunidade não se estende a atos criminosos privados [4].

 

A jurisprudência americana, especialmente o precedente Noriega, sugere que a imunidade de Chefe de Estado não é absoluta, particularmente quando o indivíduo é acusado de crimes graves como narcoterrorismo, que são considerados atos ultra vires (além dos poderes) e não atos oficiais de Estado.

4.2. Imunidade por Atos Oficiais (Act of State Doctrine)

Maduro pode argumentar que os atos de narcoterrorismo foram cometidos no exercício de suas funções oficiais, como parte de uma estratégia de Estado (o "Cártel de Los Soles" como um braço do Estado). No entanto, a Doutrina do Ato de Estado (Act of State Doctrine) é tipicamente aplicada a questões de direito civil e não a processos criminais contra indivíduos [4]. Além disso, a natureza dos crimes imputados — tráfico de drogas e terrorismo — é amplamente considerada como violadora de normas jus cogens (normas imperativas de direito internacional), o que pode afastar qualquer proteção de imunidade.

5. Conclusão

A Doutrina Ker-Frisbie, firmemente estabelecida na jurisprudência da Suprema Corte dos EUA, garante que a ilegalidade da captura de Nicolás Maduro sob o Direito Internacional não será um impedimento para que o Tribunal do Distrito Sul de Nova York exerça sua jurisdição. O princípio male captus, bene detentus prevalecerá sobre as objeções de violação de soberania.

O principal campo de batalha jurídico será a questão da imunidade. A política de não reconhecimento do governo Maduro pelos EUA, combinada com o precedente Noriega, torna altamente provável que os tribunais americanos rejeitem a alegação de imunidade de Chefe de Estado. Ao classificar o narcoterrorismo como um ato criminoso privado, e não como um ato oficial de Estado, a justiça americana se posicionará para dar continuidade ao julgamento.

A eventual condenação de Maduro, embora juridicamente possível sob o direito interno dos EUA, representará um marco no Direito Internacional, reforçando a postura unilateral dos Estados Unidos em perseguir líderes estrangeiros acusados de crimes graves, mesmo à custa da violação da soberania de outras nações.

Referências

[1] Ker–Frisbie doctrine. Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Ker%E2%80%93Frisbie_doctrine [2] Maduro foi capturado pelos EUA; veja tudo o que se sabe. Terra. Disponível em: https://www.terra.com.br/ao-vivo/noticias/mundo/maduro-foi-capturado-pelos-eua-veja-tudo-o-que-se-sabe,5c79a164008a8c39ff5064ec3241550ft2rmix23.html [3] Manhattan U.S. Attorney Announces Narco-Terrorism Charges Against Nicolas Maduro, Current And Former Venezuelan Officials, And Farc Leadership. U.S. Department of Justice. Disponível em: https://www.justice.gov/usao-sdny/pr/manhattan-us-attorney-announces-narco-terrorism-charges-against-nicolas-maduro-current [4] Vladeck, Steve. 200. Five Questions About the Maduro Arrest Operation. One First. Disponível em: https://www.stevevladeck.com/p/200-five-questions-about-the-maduro

 


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